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22 de fevereiro de 2022

'Um livro sou eu, eu sou um livro.'

'Um livro sou eu, eu sou um livro.'



 
Como é que eu me tornei livreira? Ora bem, eu sou livreira há vinte e dois anos e tornei-me livreira por causa de uma estupidez minha, que é mesmo uma estupidez… e porque gostava de livros. Juntei as duas, foi uma junção do útil e do agradável…. Cometi um erro, estava sem emprego e no espaço de dois meses, qualquer coisa do género, vi uma vaga para livreiros, concorri e fiquei.

A estupidez foi num concurso para professores em que me enganei numa das coisinhas que tinha de colocar e subi na escala indevidamente e, assim sendo, desisti esse ano de me candidatar ao ensino, pois não achava correto candidatar-me com dados errados e procurei alguma coisa para fazer esse ano para não ficar desocupada e foi quando vi um anúncio a procurar livreiros e concorri, gostei e fiquei. Não estava a pensar ser livreira, foi um acaso, mas também acho que não era o ensino que eu queria…

O que é que me faz feliz no trabalho? Ora bem, primeiro tem a ver com o facto de eu gostar de livros. Já gostava, já antes de trabalhar com livros, já era uma leitora - vamos chamar compulsiva- que já era, e na altura não havia a oferta que há… O que me faz feliz é trabalhar com livros, trabalhar com pessoas, mas acima de tudo tem mesmo a ver com os livros. O facto de gostar tanto de ler, do livro enquanto objeto, de poder partilhar aquilo que eu leio, aquilo que eu faço. Para mim existem três verbos para quem gosta de livros: partilhar, ouvir e gostar. Porque eu para fazer aquilo que faço tenho mesmo de gostar do que faço, tenho de saber partilhar e tenho de saber ouvir, mas acima de tudo partilhar, acho eu!

O que gosto menos neste trabalho é a burocracia… Essa é a parte complicada, a parte operacional da coisa, chamemos-lhe assim, a parte da gestão, porque eu não me limito a vender livros, não é? A maior parte das pessoas acha que ser livreiro é simplesmente vender livros, mas há todo um trabalho que tem de ser feito antes e depois. O livro chegar a uma livraria e sair de uma livraria implica as partes mais burocráticas, mais técnicas, mais operacionais, são as que eu menos gosto… mas isso tem a ver com o facto de eu ser de letras.

Se não fosse livreira, o que é que seria? É engraçado que eu não me lembro de fazer essa pergunta a mim própria há anos…, mas é mesmo… não sei… não vos acontece isso? Eu não me faço essa pergunta, porque não me vejo a fazer outra coisa, eu sou o reflexo daquilo que faço, eu sou aquilo que faço, aquilo que faço sou eu.

Este trabalho contribuiu muito para a pessoa que sou hoje: cresci acima de tudo, tive de aprender a lidar com pessoas, tive de aprender a saber ouvir, ou melhor escutar, mas mais do que isso, foi o aprender a lidar com pessoas, a partilhar também, não é que fosse um ser egoísta, mas por norma não tinha com quem falar, não falava muito de livros com as pessoas.

Este trabalho definiu-me. O trabalhar com livros… olha, sou eu, um livro sou eu, eu sou um livro…não sei o que que é que te hei de dizer, ó Vítor não faças perguntas difíceis…

Para mim a melhor história, e inesquecível até aos dias de hoje, porque na altura eu trabalhava com livros há dois ou três anos e não conhecia uma expressão que pelos vistos é usada aqui no Porto. Foi quando um senhor me pediu livros “do homem e mulher em função”! Eu estava na livraria há dois ou três anos e vem o senhor ter comigo e diz “Ó menina, tem livros do homem e mulher em função?” E eu estúpida a olhar para ele “Homem e mulher em função? Mas eu não sei o que é isso…” e ele “Ó menina! Homem e mulher em função!” e eu “Pois, mas… eu não estou a perceber…” e ele “Ó menina, aqueles livros, em que normalmente o autor é anónimo” e saiu-me assim muito alto “Ah! Está a falar de livros eróticos?” e ele “Sim, é isso!” Porquê? Porque havia na altura uma coleção, acho que era da Europa-América, dos clássicos eróticos que são quase todos anónimos, que são as “onze mil vergas” e não sei o quê… já nem me lembro. E eu não conhecia a expressão “homem e mulher em função” e depois alguém me disse “Então essa é uma expressão muito conhecida, é sexo!” e eu não conhecia! Essa marcou-me pela inexperiência e por ser uma situação caricata.

Depois há aqueles momentos marcantes que é quando alguém nos agradece o nosso trabalho ou nos elogia. Lembro-me de várias pessoas em particular. Um foi com o “Stoner” do John Williams. Um senhor foi à livraria de propósito agradecer-me por lhe ter recomendado o livro e que já tinha comprado para aí cinco ou seis para oferecer. O outro foi um livro que eu gostei muito que é o “Pátria” do Fernando Aramburu e eu estava a falar do livro normalmente a um senhor e ele simplesmente me diz assim “Não me diga mais nada, o brilho nos seus olhos já me disse tudo. Não precisa de me dizer mais porque já me conquistou!” E, como esses, há outros porque quando falamos de um livro de que gostamos, a pessoa que está à nossa frente percebe. Percebe que não é forçado, que é sentido, que vem mesmo cá de dentro.

Quando faço isto não estou só a vender, estou a partilhar. Como é óbvio, o meu objetivo é vender, mas aqui falo de partilhar, dar a conhecer… Eu gosto muito de descobrir, gosto de descobrir autores novos, autores diferentes, fujo mesmo dos autores, vou chamar de tops ou de massas, os mais conhecidos que andam aí nas redes sociais ou afins, não é que não os leia (que também leio), mas ao longo destes anos todos enquanto leitora, é raro agora dizer que não gosto de um livro, é raro! Porquê? Porque tudo o que eu leio já é escolhido de outra forma, não é aleatório, não é porque me vem parar simplesmente às mãos, eu estou a ler aquele livro por algum motivo, ou porque comprei há dez ou quinze anos e sabia que o iria ler um dia, ou porque é um autor de que eu gosto mesmo muito ou porque o tema me desperta…é raro nos últimos anos dizer “Eu não gostei deste livro.” É sempre interessante, eu também tenho uma particularidade, eu nos livros tento sempre encontrar algo de positivo. Por muito que o livro me tenha custado a ler ou que não tenha gostado tanto, eu encontro sempre algo de positivo nos livros, sempre!

Para ser um excelente livreiro é preciso saber ouvir, saber partilhar, nunca inventar, nunca mentir, se não se conhece o livro, não vale a pena inventar e usar aquelas expressões… detesto adjetivos para descrever livros, quer dizer deixa-me retificar, não é que eu não goste de adjetivos, não gosto de determinados adjetivos “Ai este livro é maravilhoso!” “Ai, é soberbo!” “É delicioso” “É lindo” “É fofo”, o que é um livro fofo? Mete-me um bocado de confusão…

O conselho principal que eu dou a quem quer fazer isto é que seja verdadeiro. Ser verdadeiro porque como se costuma dizer “a mentira tem a perna curta”. Eu não consigo, se me perguntam por um livro que eu não li, ou que não conheço, eu digo! Eu digo “Olhe, não sei, não li!”, ou então, se li alguma coisa, complemento, digo que vi um artigo ou que alguém já leu que eu conheço, mas não invento naquilo que não conheço.

O que acrescento à vida dos outros? É assim, o livro pode ser um escape… não estou a ver como é que posso ajudar as pessoas… Como é que a vida das pessoas pode ficar melhor por eu existir? Olha, porque eu recomendo bons livros!

Lembrei-me agora de uma história que aconteceu há dias, por falar nisso, aconteceu na semana passada. É uma daquelas pessoas que costumam ir à livraria bastantes vezes, há pessoas que nós só cumprimentamos, outras com quem falamos. Foi casual, a senhora disse-me que queria sair da zona de conforto dela e então se eu lhe recomendava alguma coisa, eu já lhe tinha recomendado vários e ela agora vai lá constantemente perguntar-me por livros. Ela disse-me você falou-me de um chinês há uns dias atrás e eu lá lhe mostrei o chinês e diz ela “Olha, você está a ficar famosa!” E eu “Famosa, porquê?” e ela “Fui há uns dias a outra livraria e estava a dizer-lhes que tinha vindo aqui e que me tinham recomendado xis xis xis… e eles disseram logo que só podia ser a Florinda, claro! Livros fora da caixa, só pode ser ela” Isso é gratificante! E o que é que eu trouxe à vida dela? Trouxe novidade! Ela saiu da zona de conforto dela, ela agora lê coisas completamente diferentes, desta vez levou os três livros que lhe recomendei.

Porque eu também gosto de autores que não são tão conhecidos…olha, o último que li, a “Pele” do Malaparte, quem é que ouviu falar na “Pele”? Um livro tão duro… tão violento… nunca chorei a ler até ler este livro.

| Florinda |

Sobre o Projeto:

Qual é a história da pessoa que conhecemos a fazer o seu trabalho? O que é que a faz feliz na sua função? E infeliz? De que forma aquilo que faz influencia a pessoa que é? Como é que ela pensa que o seu trabalho ajuda os outros a ter uma vida melhor? O que é que a motiva a continuar todos os dias? Num mundo em que cada vez mais se exigem resultados, e a energia escasseia para ver verdadeiramente o outro, este é um projeto fotográfico e de storytelling sobre a face humana do trabalho.

Com a fotografia tento captar a 'essência' da pessoa, a sua individualidade, a sua verdade, e por isso evito que se esconda atrás do seu sorriso, se este não for natural. Gosto de a fotografar no seu contexto profissional para que possamos ver o "humano no trabalho", utilizo apenas a luz que existe nesse local e, por último, optei pelo preto e branco para que a cor não seja uma distração ao essencial: para que as marcas da vida, as rugas, a emoção no olhar e as formas do rosto e do contexto fiquem mais evidentes e intensas.

Aqui interessa-me a recolha da história simples e sintética da pessoa na sua relação com o trabalho, como este o transforma enquanto ser humano, e de que forma ajuda os outros. Escrevo as palavras tal e qual como me são ditas para não contaminar a verdade do entrevistado com correções e com as minhas interpretações.

| Vítor Briga |
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Vítor Briga
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14 de dezembro de 2019

'É a minha arte. Não tenho outra.'

'É a minha arte. Não tenho outra.'




A minha profissão é construção civil, faço um pouco de tudo, trolha, pintura, azulejos, também arranjo persianas, faço pichelaria… 

Ora bem, tornei-me um “faz tudo” nesta área porque eu comecei a trabalhar com dez anos e meio como ajudante de marceneiro, ia para a escola de manhã e de tarde trabalhava a ajudante de marceneiro, depois aos doze anos, quando fiz o exame da quarta classe é que fui para a construção civil trabalhar com um cunhado meu e aos dezasseis anos já era o que sou, porque sabe como é, nesta área a gente começa desde pequenos, começa debaixo e acaba em cima e onde se aprende a arte é com estes mestres. Eu tinha dezasseis anos e já sabia mais que os meus cunhados e irmãos, que os mais velhos do que eu. 

O que me levou a este trabalho foi a necessidade porque naquele tempo, há quarenta e tal anos, era um tempo de muita passa fome e os meus pais eram de São Pedro da Cova, o meu pai trabalhava nas minas, a minha mãe era entravada de uma perninha e havia muita fome e o meu irmão mais velho, que Deus o tenha em eterno descanso, ia trabalhar um mês, recebia, e só passados dois meses é que voltava a casa e, pronto, eu mal fiz o exame da quarta classe fui trabalhar para ajudar a casa. 

Para eu aprender não é preciso estarem a explicar basta eu ver e depois eu vou apanhar a prática. Foi  como comecei a chapar massa. Não foi ninguém que me ensinou a chapar massa, eu era rapazinho trolha, moço, e depois ao fim da tarde tínhamos de lavar a ferramenta dos oficiais, havia aqueles camiões de areia e a gente ia lá para a beira lavar a ferramenta e eu pegava na colher e na talocha deles e com areia ia tentando apanhar o jeito e foi assim que aprendi a chapar massa. Ver outros a fazer e eu fui fazendo e ganhando prática, a prática sempre acima de tudo. 

Nessa altura a arte era diferente de hoje, porque hoje temos uma construção mais fácil, antigamente a gente tinha de assentar tijolo, se a casa fosse feita de pedra, era a pedra, carregar placas, quando não havia betoneiras era à mão, era uns a fazer a massa, outros a encher e outros a guindar. Era outra forma de trabalhar, enquanto agora vem um camião de massa, vem uma máquina, que eles chamam a lombriga e leva a massa para lá. 

O que me faz feliz neste trabalho? Ora bem, é trabalhar! É ter trabalho, lidar com pessoas honestas, que eu também sou, não é? O que me faz feliz é isso… e deixar as coisas em condições, porque se eu for ali ao meu telemóvel, vê só clientes ali, tenho duzentos e tal números. Que eu fique satisfeito com o cliente e gosto que o cliente fique satisfeito comigo para que qualquer trabalho que haja “É o João!”. 

O que gosto menos neste trabalho? Ora bem, não gosto de muito de ferrageiro, também sei, mas não gosto muito. No geral, da minha arte gosto de fazer de tudo, mas às vezes encontramos coisas que pensamos que vamos demorar uma hora e demoramos três e quatro… é isso que às vezes chateia… são essas dores de cabeça que eu não gosto. 

Também não gosto quando o cliente não está satisfeito e não me diz nada no momento, eu prefiro que o cliente chegue à minha beira e diga “aqui não está bem”, “dê aqui mais um bocado” ou isto ou aquilo do que dizer que está pronto, “está bom, está bom” e passado um bocado vira-se as costas e vai dizer a outras pessoas que não ficou bem, prefiro que me liguem logo e digam venha aqui dar uma saltada porque não ficou bem. 

Se não fosse isto? Ora bem, gostava de ter uma profissão que era boa, e que não se fazia ‘nada’: porteiro! Porteiro de um prédio, se os inquilinos precisassem de alguma coisa iria ajudá-los a levar as coisas lá em cima e… aliás, já fui vigilante numa escola e também fazia de tudo, se uma porta estivesse estragada ou o que fosse preciso. 

Histórias boas tenho muitas, quer eu trabalhar por mim quer para outros patrões. Ora bem, pela negativa lembro-me de um cliente em que fui aplicar uns azulejos, mas os novos materiais nunca vão casar bem com os antigos, e ele insistia, e até me chateei com ele, foi um patrão para esquecer, porque queria que ‘eu preenchesse o Euromilhões, que lhe saísse a ele, e eu ficava sem nada’. Queria que eu fizesse como ele queria sem ter as coisas! 

Para ser excelente profissional na minha área, ora bem, é preciso saber, mas não é os estudos – agora para ir para varredor é preciso ter o nono ano, ou o décimo ano, e depois é preciso ir tirar um curso - isso não conta, o que conta é a prática, a prática desde novo até uma certa idade, ganhar prática! O que as pessoas valorizam na minha profissão é a sabedoria e, às vezes, as ideias de mim próprio para o que o cliente quer. 

O conselho que eu daria a alguém que está a começar esta profissão, se eu tivesse hipóteses, era pô-lo a trabalhar comigo, se não tivesse hipóteses de o pôr a trabalhar comigo, era dar-lhe conselhos a ele para começar de novo, o mais novo possível, isto se fosse para trabalhar, mas se ele tivesse coiso para estudar, que seguisse os estudos primeiro…apesar que, vamos ver, há muita gente que tem cursos e estudos e querem trabalho e não têm . 

O que acrescento a vida das pessoas? Ora bem, o que eu faço melhora a vida das pessoas, a pessoa sentir-se bem com o trabalho que foi feito. 

O que me mantém motivado para continuar neste trabalho? É a minha arte. Não tenho outra.

| João |

Sobre o Projeto:

Qual é a história da pessoa que conhecemos a fazer o seu trabalho? O que é que a faz feliz na sua função? E infeliz? De que forma aquilo que faz influencia a pessoa que é? Como é que ela pensa que o seu trabalho ajuda os outros a ter uma vida melhor? O que é que a motiva a continuar todos os dias? Num mundo em que cada vez mais se exigem resultados, e a energia escasseia para ver verdadeiramente o outro, este é um projeto fotográfico e de storytelling sobre a face humana do trabalho.

Com a fotografia tento captar a 'essência' da pessoa, a sua individualidade, a sua verdade, e por isso evito que se esconda atrás do seu sorriso, se este não for natural. Gosto de a fotografar no seu contexto profissional para que possamos ver o "humano no trabalho", utilizo apenas a luz que existe nesse local e, por último, optei pelo preto e branco para que a cor não seja uma distração ao essencial: para que as marcas da vida, as rugas, a emoção no olhar e as formas do rosto e do contexto fiquem mais evidentes e intensas.

Aqui interessa-me a recolha da história simples e sintética da pessoa na sua relação com o trabalho, como este o transforma enquanto ser humano, e de que forma ajuda os outros. Escrevo as palavras tal e qual como me são ditas para não contaminar a verdade do entrevistado com correções e com as minhas interpretações.

| Vítor Briga |

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Vítor Briga
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5 de janeiro de 2018

'Ao mesmo tempo que te desgasta, aquilo faz-te sentir vivo.'

'Ao mesmo tempo que te desgasta, aquilo faz-te sentir vivo.'




Como é que me tornei guia turístico na Islândia? Foi devido a um desgosto amoroso.

Eu estava em Portugal completamente perdido, estava desesperado e, de certa forma, esse desespero é que me levou para a Islândia sem ter uma ideia concreta do que era a Islândia, sem nunca lá ter estado, e sem saber o que ia fazer. Eu simplesmente queria ir…

Eu aqui não tinha um plano de vida, os meus projetos profissionais estavam a falhar, o meu relacionamento tinha falhado…foi uma sequência de coisas que me deixou sem objetivos. Decidi ir para o sítio mais longe.

Quando cheguei à Islândia precisava de ganhar dinheiro, fui com ‘uma mão vazia e outra sem coisa nenhuma’, foi um bocado assim, e então, quando lá cheguei, o primeiro trabalho que arranjei (que nunca imaginei que fizesse, mas uma pessoa aprende) foi um trabalho nos barcos, nos estaleiros navais, a fazer aquilo que faz um ajudante de serralheiro, muito duro num clima muito agreste, mais do que frio, é agreste! De inverno, com vento, frio e chuva a trabalhar nos barcos, para mim foi muito duro! Entretanto, fui trabalhar para um restaurante como ajudante de cozinha. Estava dentro dum espaço, era melhor.

Depois vim a Portugal passar o natal e, quando regressei em janeiro, pensei: “Não quero ficar só por aqui, quero conhecer a Islândia real, quero conhecer mais!”. E então fui para Akureyri, que é no Norte, no círculo polar ártico. Em Akureyri fui à procura de trabalho ao centro de emprego e havia vaga para trabalhar na estância de esqui. Isso marcou o meu percurso na Islândia, trabalhei lá seis invernos e é nessa estância que começo a ter contacto com aquela Islândia real. Na montanha tu tens o verdadeiro tempo da Islândia, as mudanças muito rápidas, temperaturas negativas, tempestades de neve que vêm de um momento para o outro, e tu andas ao ar livre a ter que guardar tudo de um momento para o outro. Todas as pessoas trabalham e ali o trabalho físico é essencial. Não existiria a Islândia atual se não existisse trabalho físico, eles têm uma predisposição física totalmente diferente.

Isto só se entende quando andas numa tempestade de neve e depois da tempestade vais para dentro da sala tomar um café, num sítio quente, e estás totalmente desgastado, porque fisicamente é muito extenuante andar naquele tempo lá fora. Só que quando chegas extenuado fisicamente, chegas mentalmente com uma sensação de liberdade, saudável, de vida! Ao mesmo tempo que te desgasta, aquilo faz-te sentir vivo e é isso que é apaixonante na verdadeira Islândia, esta sensação de vida!

Então, eu apaixonei-me muito por isso e, ao mesmo tempo, como sempre gostei de criar projetos, contactei uma agência de viagens portuguesa a perguntar se queriam que eu organizasse viagens à Islândia.

O contacto com a natureza selvagem, indomável, não moldada pelo homem. Esta natureza é o maior potencial da ilha e é aquilo que me faz feliz, é como estar na montanha, e depois poder transmitir isso às pessoas que lá vão, as sensações que a natureza nos dá. O que gosto menos é a confusão nos sítios que eu conheci sem ninguém há dez anos, e que agora estão cheios de serviços. Eu gostava mais quando eram selvagens, sem cafés e sem lojas a vender lembranças e agora é pessoas, e mais pessoas, e mais pessoas… Sítios que agora têm estradas asfaltadas para reservas naturais, onde antes não podias sequer ir porque eram protegidas. A indústria turística é devoradora…

A minha ida para a Islândia, e este trabalho, mudou-me completamente. Ao estares numa cultura completamente diferente, tu vais aprender a relativizar. Aprendi que se tem de fazer tudo e que tudo é válido. Nós temos de saber fazer tudo. A própria natureza nos ensina isso. Esta ideia de que eu trabalho num escritório e não faço outras coisas, porque não são da minha atribuição, é ridícula na Islândia. Vês crianças a trabalhar a partir dos treze anos, e isso não é exploração, são as próprias crianças que querem porque faz parte da cultura. As mulheres fazem trabalho físico e não te deixam  ajudar, porque não se aplica este cavalheirismo latino daqui, pois elas não o aceitam. Aprendi com a Islândia a relativizar e também aprendi, apesar da natureza, a não me deslumbrar, porque sabes que tudo tem coisas boas, mas que também tem coisas más e isto é válido para tudo na vida e para qualquer local onde estejas.

Uma coisa má lá é a dificuldade de transmissão de afetos. É uma coisa marcante e que dá que pensar. Não vês duas pessoas de mão dada na rua, um beijo, um abraço… há grande dificuldade em dar um abraço a alguém, ninguém abraça ninguém. Eu entendo que é preciso contextualizarmos, que esta noção de espaço, de individualidade, é muito importante e só assim foi possível sobreviver e construir o país, mas, embora entendendo no contexto do isolamento e da necessidade da sobrevivência, aquilo, na verdade, transmite-se um bocado e eu senti que estava também a ficar mais fechado, com mais dificuldade em fazer amizades.

Histórias, tenho várias. Lembro-me de uma viagem que fiz, como guia privado, com um grupo de oito pessoas, dois casais e quatro senhoras. Estávamos a passar o sul da Islândia e estava muito vento, ventos próximos dos cento e vinte quilómetros por hora, e, ao irmos para uma reserva natural, o vento e a chuva era tanto que parei a carrinha e ela abanava toda. Ninguém queria sair do carro, a não ser um senhor que já tinha os seus setenta anos, que queria ir lá fora para sentir a natureza e a mulher disse “Não vais, Manel, não vais lá fora!” mas ele teimou que queria, porque queria sentir. Então, o senhor saiu do carro e foi caminhando até próximo do precipício, porque aquilo são rochedos com mais de cem metros de altura, e quando se virou para tentar vir para o carro novamente, ficou contra o vento e não conseguia andar…cada passo que dava para a frente, dava dois para trás e então gerou-se um pânico dentro do carro, porque o vento arrastava-o cada vez mais para o precipício. Nesse momento, tentei acalmar primeiro as pessoas que estavam comigo dentro do carro e, ao mesmo tempo, dizer ao senhor com gestos para ele se deitar no chão, para não ser levado pelo vento e dar-me tempo para me aproximar dele. Como tinha lá uma corda, amarrei-a a mim e ao carro e cheguei até ele e trouxe-o nas minhas costas, protegido do vento. Quando cheguei ao carro, acho que nunca as senhoras me beijaram tanto! E claro que a partir daí o senhor teve de ouvir a esposa até ao final da viagem: “És sempre a mesma coisa”, “Nunca me obedeces…”

Para ser um excelente guia turístico, tem de se ser preparado em termos de conhecimento geral do país, ter uma noção daquilo que mais desperta a pessoas, saber, por exemplo, que contando lendas consegues captar logo as pessoas. Tem de se ter um misto de informação geral que se possa passar com uma parte sensorial e emotiva. Um misto de sensibilidade e informação. Porque as pessoas são compostas de emoções, as pessoas são afetos e se tu não conseguires lidar com afetos não adianta teres muita informação para dar. Se ouvirmos, tocarmos, um carinho, um abraço, é isso que a pessoas necessitam na vida… não é só na viagem…é na vida. Sem afeto eles desligam da informação. É o afeto que faz com que as pessoas te queiram ouvir.

O que acrescento à vida das pessoas? Beleza. Sem fantasia não existe vida, sem beleza não vale a pena viver. E é isso que a pessoas vão buscar à viagem, algo que faça a vida delas valer a pena, ter beleza, ter magia. Acredito que algumas pessoas se vão lembrar de mim, que eu tenha sido um contributo. Eu sou um veículo, se fizer um bom trabalho, posso fazer com a que a viagem seja um momento inesquecível na vida das pessoas.

Enquanto isto me trouxer beleza a mim também e enquanto as pessoas sentirem beleza nas viagens, faz sentido. É isso que me motiva.

Passados dez anos, a força da Islândia não me curou a ferida do desgosto amoroso. Trouxe-me uma série de belezas, e pode me ter ajudado também nesse caso, mas não posso dizer que curou, porque não posso colocar no exterior algo que tem de ser resolvido pelo interior.

Não é a ir embora que a gente resolve os problemas que tem dentro.

Ivo |

Sobre o Projeto:

Qual é a história da pessoa que conhecemos a fazer o seu trabalho? O que é que a faz feliz na sua função? E infeliz? De que forma aquilo que faz influencia a pessoa que é? Como é que ela pensa que o seu trabalho ajuda os outros a ter uma vida melhor? O que é que a motiva a continuar todos os dias? Num mundo em que cada vez mais se exigem resultados, e a energia escasseia para ver verdadeiramente o outro, este é um projeto fotográfico e de storytelling sobre a face humana do trabalho.

Com a fotografia tento captar a 'essência' da pessoa, a sua individualidade, a sua verdade, e por isso evito que se esconda atrás do seu sorriso, se este não for natural. Gosto de a fotografar no seu contexto profissional para que possamos ver o "humano no trabalho", utilizo apenas a luz que existe nesse local e, por último, optei pelo preto e branco para que a cor não seja uma distração ao essencial: para que as marcas da vida, as rugas, a emoção no olhar e as formas do rosto e do contexto fiquem mais evidentes e intensas.

Aqui interessa-me a recolha da história simples e sintética da pessoa na sua relação com o trabalho, como este o transforma enquanto ser humano, e de que forma ajuda os outros. Escrevo as palavras tal e qual como me são ditas para não contaminar a verdade do entrevistado com correções e com as minhas interpretações.

| Vítor Briga |

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Vítor Briga
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23 de dezembro de 2016

'Agora o que me faz feliz no trabalho é fazer doces.'

'Agora o que me faz feliz no trabalho é fazer doces.'




Eu não gostava da cozinha, sinceramente eu não gostava da cozinha. Tornei-me cozinheira há 37 anos para ajudar os meus filhos a crescer e para terem dinheiro para a escola. Tornei-me cozinheira a pensar no futuro deles, para os fazer doutores que era o meu sonho antigo. Juro pela minha santíssima mãe! Eu não gostava, mas depois fui-me habituando e agora faço com gosto o que faço, gosto de fazer bem feito.

Agora o que me faz feliz no trabalho é fazer doces. Sinto-me melhor, é mais leve, é uma coisa diferente. O que eu não gosto neste trabalho é quando vem muito stress, tudo junto, muita confusão, toda a gente a pedir coisas à cozinha, quando a gente se queima, é horrível...

Quando era pequenina queria ser costureira, mas a minha mãe não podia ajudar-me. Agora queria ser florista. Isso é que era! Adorava, adorava, adorava...quem sabe se um dia ainda posso ser, quando me reformar. Ter uma florista, eu gostava imenso, adorava trabalhar com flores...ainda tenho esse sonho.

O que é ser uma excelente cozinheira? É, sei lá, como é que me hei-de exprimir, é fazer as coisas bem feitas, limpas, a comida bem apuradinha, como deve ser...

O que trago de bom à vida das outras pessoas? A alimentação é importante... as pessoas têm de comer. Elas vêm comer, se ficarem contentes, vão satisfeitas, eu também fico satisfeita em servi-los bem.

Mas o que me mantém motivada todos os dias é a minha netinha. Quando o chefe me começa ali a chatear, eu penso "fala para aí!", viro costas, penso na minha neta e acabou. Ela veio me trazer outra vez motivação. Os meus filhos foi para começar, a minha neta é para continuar. Temos de ter uma fé.

| Antónia |


Sobre o Projeto:

Qual é a história da pessoa que conhecemos a fazer o seu trabalho? O que é que a faz feliz na sua função? E infeliz? De que forma aquilo que faz influencia a pessoa que é? Como é que ela pensa que o seu trabalho ajuda os outros a ter uma vida melhor? O que é que a motiva a continuar todos os dias? Num mundo em que cada vez mais se exigem resultados, e a energia escasseia para ver verdadeiramente o outro, este é um projeto fotográfico e de storytelling sobre a face humana do trabalho.

Com a fotografia tento captar a 'essência' da pessoa, a sua individualidade, a sua verdade, e por isso evito que se esconda atrás do seu sorriso, se este não for natural. Gosto de a fotografar no seu contexto profissional para que possamos ver o "humano no trabalho", utilizo apenas a luz que existe nesse local e, por último, optei pelo preto e branco para que a cor não seja uma distração ao essencial: para que as marcas da vida, as rugas, a emoção no olhar e as formas do rosto e do contexto fiquem mais evidentes e intensas.

Aqui interessa-me a recolha da história simples e sintética da pessoa na sua relação com o trabalho, como este o transforma enquanto ser humano, e de que forma ajuda os outros. Escrevo as palavras tal e qual como me são ditas para não contaminar a verdade do entrevistado com correções e com as minhas interpretações.

| Vítor Briga |
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Vítor Briga
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